domingo, Março 13, 2005

 

O nascimento de Vénus de Botticelli



Nascimento de Vénus (c. 1485-86) pintado para a villa de Lorenzo di Pierfrancesco de' Medici e em exposição na Galeria dos Uffizi em Florença.


Vénus foi concebida quando o Titã Cronos castrou o Deus Urano e os seus genitais caíram ao mar fecundando-o. Botticelli apresenta-a desembarcando na ilha de Chipre, vinda numa concha impulsionada pelos deuses do vento e sob um chuveiro de rosas.

Durante séculos as obras de Sandro Botticelli (1446-1510) foram totalmente ignoradas. Só no século XIX o pintor conheceu uma segunda vida. A recuperação é feita inicialmente por artistas como Ruskin e Rossetti mas ainda na década de 1860 havia a opinião generalizada que Botticelli limitava o seu atractivo à preferência dada às mulheres feias (?!). F. Kermode em Formas de Atenção (livro que estou a seguir para escrever este parágrafo) cita R. N. Wornum que descreve tais mulheres como “rudes e de um modo geral destituídas de beleza.” Mas na década de 1870 o grande crítico Romântico Walter Pater publica o famoso ensaio The Renaissance onde procede a uma recuperação mais sistemática de Botticelli.

Faço agora uma viragem em direcção a V. Se o americano John Ashbery é o meu poeta vivo favorito, o também americano Thomas Pynchon é o meu romancista vivo favorito. Por uma espécie de consenso geral, a obra-prima de Pynchon é Gravity’s Rainbow (1973), mas pessoalmente acho o romance túrgido e gelado e os seus muitos excessos curto-circuitam o prazer da leitura. Para mim, a verdadeira obra-prima é V. o seu segundo livro publicado em 1963.

É impossível resumir ou sequer descrever V. Para o que me interessa aqui salto directamente para o capítulo VII com o título “Ela não larga a parede do Oeste” (na tradução de Rui Vanon). Em Florença, sentados num café, uma trindade constituída pelo Signor Rafael Mantissa, discípulo de Maquiavel e tal como ele um exilado, Cesare, um Italiano que sabe manejar bem uma faca, e Gaúcho, um revolucionário romântico vindo da Venezuela, discutem os detalhes de um roubo. Objectivo: o quadro Nascimento de Vénus de Botticelli exposto na galeria dos Uffizi. O plano envolve uma olaia oca fornecida por um florista reticente que transportará o quadro (que é enorme, 1,75 por 2,79m), uma granada atirada contra uma janela e uma diversão. No final do encontro, o Signor Mantissa murmura “Ela é tão linda!” Na noite fatídica, os companheiros de Gaúcho, os Figli di Machiavelli, assaltam o centro da cidade a galope cantando Avanti i miei fratelli. Figli di Machiavelli, avanti alla dona Libertá. O exército persegue-os furiosamente. “A pancadaria estala a murro” traduz Rui Vanon. Depois começam os tiros e o sangue corre pelos passeios. Um insurrecto de camisa às cores é apunhalado à baioneta várias vezes. Numa esquina uma mulher chamada Victoria Wren, com uma travessa de marfim no cabelo com cinco crucificados partilhando um braço, assiste à glória da Violência como se fosse uma cena preparada para a sua exclusiva atenção. Também nós os leitores lemos crucificados a uma esquina a glória da Violência como num teatro privado. A trindade de conspiradores aproveita a confusão para entrar na galeria. Já na sala Lorenzo Monaco, Mantissa fica especado a olhar Vénus como um “meigo libertino assaltado por um ataque de impotência” (Oh como eu o entendo!); desiste do plano e deixa-a a ficar pendurada na parede. Ouvem-se tiros. Gaúcho atira uma granada para o corredor e depois desatam a fugir dali, Gaúcho disparando à queima-roupa, Cesare brandindo uma faca como um louco e Mantissa esbracejando no ar como um albatroz descontrolado. Conseguem salvar-se. Nessa noite, da ponte San Trinitá, uma barcaça desce o Arno em direcção a Pisa e ao oceano tendo como tripulantes um eterno exilado apaixonado por Vénus, um capitão da marinha e explorador do Antártico e o gordo do filho. Na galeria dos Uffizi, frente à Vénus de Botticelli está uma olaia oca carregada de flores roxas.

Desde a minha adolescência que ando exilado e, como o Signor Mantissa, obcecado pela Vénus de Botticelli. Ela é para mim uma espécie de símbolo do Terrível, do Brutal milagre da pura Beleza. A Vida tem-me confirmado essa certeza com dolorosa pungência. E é então que chego a saber que sou um Homem Mau porque a vontade que tenho é de agarrar numa pedra e desfazer-lhe o rosto numa polpa de sangue e osso esmigalhado (Isto, como é óbvio, é uma grande mentira. Como disse o Outro: “Compreendem, eu amava-a. Foi amor à primeira vista, à última vista, a todas as vistas.” O que não é mentira nenhuma é que eu sou mesmo um Homem Fundamentalmente Mau).

Banda Sonora: para confundir ainda mais os meus eventuais leitores (— Hypocrite lecteur, — mon semblable, — mon frère!), oiçam o manifesto sado-masoquista dos Velvet Underground, Venus in furs.



Comments:
Interesante o enfoque estabelecido neste texto a respeito do belo e das preferências. É um texto que contempla a interdisciplinaridade e ao mesmo tempo provocativo.
 
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